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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Literatura_Narrativa_Contos

Literatura_Narrativa_Contos
Postado por Paulino Vergetti Neto às 2/21/2007 03:43:00 PM Nenhum comentário:
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Foi ele quem chorou...

Quando deixei Curitiba para trás e vim morar em Maceió com os meus pais, sabia da drástica mudança que teria num sentido amplo minha nova convivência. Estaria entre pessoas doutra civilização. O Nordeste me fascinava a ponto de deter-me à frente dos documentários a que assistia na televisão. Sua musicalidade me entorpecia, e eu enchia a boca de saliva com desejo de visitá-lo. Cheguei aqui com oito anos de idade. A família que habitava o apartamento vizinho ao nosso era muito prestativa. Passava a maior parte de meu tempo com eles. Foi aí que o Marcos entrou em minha vida. Nosso namoro absorvia o dia inteiro e todos os dias. Não tolerava passar sequer um instante longe dele. Aos onze anos namorava firmemente o garoto com treze. Era muito comum ele dormir lá em casa, no meu quarto, cheirando o meu travesseiro emprestado. Eu, nesses dias, dormia entre meus pais, atrapalhando seus abraços e seus delírios. Papai sempre foi dado a beijos e abraços de amor em mamãe. Muitas vezes eu os via abraçando-se. Eu lia o Pequeno Príncipe, distraída com os encantos da leitura quando ele entrou no meu quarto. Tinha acabado de tomar banho. Trazia consigo um sorriso safado e incomum. Eu o olhei após derrubar o livro na cama. Abri os braços e ele cobriu meu corpo com o seu após cuidar de fechar a porta. Eu suspirei entre uma surpresa e duas satisfações. _Fechou a porta? _Sim. _Por quê? Senti-o sobre mim em fantástica viagem dos sentidos. Acariciou-me até nossos suores se diluírem um no outro. Eu li, já farta em meus desejos, uma outra história, essa de amor, que me levou à casa das mulheres, onde a virgindade apenas podia ser lembrada. Ele me fez mulher àquele dia. Ouvi o barulho do chuveiro. Mandei-o sair de casa. Um medo me possuiu após ser tragada pela carne envenenada. Foi tudo muito rápido. Saí do quarto e fui até o deles. Abri a porta, vi mamãe sentada ao bidê e papai no box da suíte a banhar-se. Eu a abracei, chorando e sorrindo e lhe disse ao ouvido o que havia me acontecido há instantes. _Você fez em limpos lençóis, como eu havia desejado para você. Agora é mulher como sua mãe. Depois conversaremos mais. Não alimente culpas. Notei que o chuveiro parara. Chamei pelo nome dele e não ouvi sua resposta, o que não me era comum. Resolvi abrir a portinhola do box. Que dor! Papai estava recolhido a um dos vértices do banheiro soluçando. _O que foi papai? Ouviu a conversa que tive agorinha com mamãe? Ele acenou positivamente com a cabeça e aumentou seu choro. Eu não o entendi e sai após fechar a porta do box. Mamãe continuava com um lindo sorriso de satisfação. Papai, daquela data em diante, sempre se mostrou diferente, embora continuasse sendo o pai carinhoso e fraternal de antes. Quando completei dezoito anos de idade, grávida que estava do primeiro filho, soube que papai e mamãe, com dois meses de namoro, completaram-se sexualmente. Os dois brigavam muito. Ele lhe propôs um pacto de amor e firmou um compromisso de sempre viverem unidos. Por isso ela não lhe cobraria mais o hímen rompido antes dos quinze anos e ele não a faria sofrer. Meus velhos vivem mansamente um ao lado do outro. Seu choro, nunca soube o porquê de tê-lo feito às escondidas e no silêncio por trás do vidro do box. Minha inocência, ingenuidade, talvez tenha lhe furado a alma com o meu discurso de amor e a fortidão da cena que resolvi escrever ao lado de quem muito amava. Ela não encontrou forças para me fazer qualquer cobrança.
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